Era quase hora do almoço e minha filha queria mais um quadradinho de chocolate. Eu olhei pra ela firme e respondi: "A mamãe te falou que aquele era o último. Agora chega."
Ela, no mesmo instante, gritou mais alto: “Mais! Quero mais!”. Eu mantive a pose e respondi “não”, tentando explicar que ela ia almoçar, que já tinha comido e tal, mas ela não quis saber e fez simplesmente o que as crianças fazem como ninguém: chorou. Chorou baixo, depois alto, depois chorou mais, depois berrou, depois se jogou no chão, depois voltou até mim, os olhos transbordando de lágrimas, como uma represa sem a sua barragem e, esperando uma resposta qualquer, eu lhe disse maquiavelicamente calma: “Não tem mais chocolate. Pode chorar, filha. Pode chorar...”
Enquanto ela voltava ao ciclo de se rebelar, eu questionava a minha atitude. Que raio de mãe eu era? Sofia estava cada vez mais manhosa e eu já dissera o fatídico “pode chorar” outras vezes. Deixei-a chorar para que ela aprendesse a dormir, deixei-a chorar para que não pegasse o brinquedo do colega, deixei-a chorar para que cuspisse a formiga que tinha acabado de pôr na boca, deixei-a chorar quando saí para trabalhar sem olhar para trás, deixei-a chorar quando arranquei de suas mãozinhas a caneta que tinha acabado de deixar um traço na minha parede branca, e outras tantas vezes, quando ela não teve a sua vontade atendida e eu lhe disse, calmamente, que podia chorar.
Pensei no restante de sua vida, que traumas teria por ter essa mãe dura e fria que eu – surpreendentemente – me mostrava algumas vezes. Como seria a sua vida com tantos fracassos? Mas como seria a vida de qualquer um sem fracassos? É possível atravessar a vida sem um arranhão? É possível prosseguir sem ralar os joelhos, sem perder alguns de seus tesouros, sem passar por uma conta negativa no banco? Tem de ser assim, pensei, enquanto a minha menina se acalmava sozinha, deitada no chão frio da cozinha.
Ah querida, eu pensei enquanto a olhava, com o coração partido, haverá outros doces que lhe serão negados. E, embora eu desejasse que não, sabia que ela teria de passar por frustrações piores. Talvez um emprego negado, talvez um amor não correspondido, uma traição da melhor amiga, uma grande perda, uma pequena topada no armário, um dedinho do pé que fica no sofá, ai, filha, quantas serão as suas lágrimas...
Ela se aproximou de mim e pousou, enfim, a cabecinha no meu braço. Suspirando entre as lágrimas, eu a abracei e voltei a dizer: "Pode chorar filha, mas não precisa."
Em um instante, fechei os olhos e desejei sempre poder estar por perto para poder fazer exatamente isso: abraçá-la e aceitar a sua dor.
Fonte: Crônica do Dia
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Querida Sofia,
Não que eu quisesse maltratar o seu pai, mas fiquei em silêncio, ao lado da porta, enquanto ele tocava a campainha insistentemente. “Amor?? Amoooor, abre a porta, o que é isso? Porque está trancada?! Que cartaz é esse aqui, de parabéns? Amooor, abre!” Do lado de dentro do nosso pequeno apartamento, eu olhava a sala, toda enfeitada para recebê-lo, e tentava segurar o riso, enxugar as lágrimas, enquanto me preparava para abrir a porta. “Parabéns por que? Não é meu aniversário!” ele falou, enquanto girava a maçaneta, em vão. Eu destranquei a fechadura e ele entrou, agitado. “O que é isso?!” disse, sem entender o que se passava. Mas, antes que eu pudesse responder, ele notou as chupetas, os sapatinhos e os outros papéis que, na parede, formavam um enorme “PAPAI” todo colorido.
Tinha sido o melhor que eu pude fazer. Passei a tarde toda com o coração disparado, em meio à papelarias e lojas de bebês, comprando um arsenal de coisas que depois seriam decoradas, pregadas nas paredes, espalhadas pelo chão, tudo com muito cuidado, no espaço infinito entre o momento da descoberta, no primeiro xixi da manhã, e a hora em que ele chegaria, no final do dia. Lembro de sentir uma certa câimbra no maxilar, um nervo que repuxava, de tanto que meu corpo ria, insistentemente, durante horas a fio.
Ele ficou um segundo parado, olhando tudo aquilo, ainda com a mochila do trabalho nas costas. Me olhou, e eu notei o susto em seus olhos. A emoção, o pavor e o amor estavam todas ali, eu sua expressão emocionada. Sem dizer nada, nenhuma palavra, ele me abraçou e chorou.
Hoje, filha querida, enquanto penso em que bolo fazer para comemorar os seus dois anos, lembrei-me desse dia, e não pude conter as minhas lágrimas. Quantas alegrias hein? Não é a toa que desistimos de tantas coisas depois que os filhos chegam. Eu já não preciso ser milionária, nem linda, nem louca. Ai, já não preciso de tantas roupas, tantos sapatos, tantos regimes. Não preciso mais ralar feito um cavalo para vencer na vida, porque já venci. Já tenho você, filha querida. Já tenho a sua irmã, olha que coisa. Já tenho duas meninas saudáveis, alegres, barulhentas. Já tenho um excesso de amor, uma razão para acordar, muitas para dormir, motivos de sobra para estar bem e feliz. Vocês. Um amor tão grande, que chega a doer. Sabe filha, quando o sol tá tão forte que chega a arder os olhos? É assim. Como aquela câimbra no maxilar, de tanto que eu ria. E já se passaram dois anos...
Hoje, o tempo passa tão depressa que mal consigo parar para escrever, e registrar aquilo que gostaria de manter sempre claro, aceso na memória. Faço força para nunca esquecer os pequenos detalhes, as coisas mínimas que preenchem com tanta alegria os meus dias. Os seus cachinhos enrolando no pescoço, as palavras erradas que custo a decifrar, as unhas sujas, sempre precisando cortar, o cheirinho doce de suor quando enterro o meu nariz no seu cabelo antes do banho e, logo em seguida, quando você aparece com o cabelos molhados e penteados, dividido de lado, o traço certinho que o seu pai faz enquanto você está sentada na pia, vestindo o seu pijama da Minnie.
Que eu não esqueça nunca, nenhum dia, nem velhinha com Alzheimer, essas memórias. Que ao menos essas meu Deus, ao menos essas, possam ser preservadas.
Um beijo biguzita querida, filhotinha amada.
Sua mãe.
Tinha sido o melhor que eu pude fazer. Passei a tarde toda com o coração disparado, em meio à papelarias e lojas de bebês, comprando um arsenal de coisas que depois seriam decoradas, pregadas nas paredes, espalhadas pelo chão, tudo com muito cuidado, no espaço infinito entre o momento da descoberta, no primeiro xixi da manhã, e a hora em que ele chegaria, no final do dia. Lembro de sentir uma certa câimbra no maxilar, um nervo que repuxava, de tanto que meu corpo ria, insistentemente, durante horas a fio.
Ele ficou um segundo parado, olhando tudo aquilo, ainda com a mochila do trabalho nas costas. Me olhou, e eu notei o susto em seus olhos. A emoção, o pavor e o amor estavam todas ali, eu sua expressão emocionada. Sem dizer nada, nenhuma palavra, ele me abraçou e chorou.
Hoje, filha querida, enquanto penso em que bolo fazer para comemorar os seus dois anos, lembrei-me desse dia, e não pude conter as minhas lágrimas. Quantas alegrias hein? Não é a toa que desistimos de tantas coisas depois que os filhos chegam. Eu já não preciso ser milionária, nem linda, nem louca. Ai, já não preciso de tantas roupas, tantos sapatos, tantos regimes. Não preciso mais ralar feito um cavalo para vencer na vida, porque já venci. Já tenho você, filha querida. Já tenho a sua irmã, olha que coisa. Já tenho duas meninas saudáveis, alegres, barulhentas. Já tenho um excesso de amor, uma razão para acordar, muitas para dormir, motivos de sobra para estar bem e feliz. Vocês. Um amor tão grande, que chega a doer. Sabe filha, quando o sol tá tão forte que chega a arder os olhos? É assim. Como aquela câimbra no maxilar, de tanto que eu ria. E já se passaram dois anos...
Hoje, o tempo passa tão depressa que mal consigo parar para escrever, e registrar aquilo que gostaria de manter sempre claro, aceso na memória. Faço força para nunca esquecer os pequenos detalhes, as coisas mínimas que preenchem com tanta alegria os meus dias. Os seus cachinhos enrolando no pescoço, as palavras erradas que custo a decifrar, as unhas sujas, sempre precisando cortar, o cheirinho doce de suor quando enterro o meu nariz no seu cabelo antes do banho e, logo em seguida, quando você aparece com o cabelos molhados e penteados, dividido de lado, o traço certinho que o seu pai faz enquanto você está sentada na pia, vestindo o seu pijama da Minnie.
Que eu não esqueça nunca, nenhum dia, nem velhinha com Alzheimer, essas memórias. Que ao menos essas meu Deus, ao menos essas, possam ser preservadas.
Um beijo biguzita querida, filhotinha amada.
Sua mãe.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Na madrugada com duas
Três horas da manhã. Escuto um choro. Levo as mãos à cabeça e tento ter paciência. Olívia só tem 2 meses, normal que não durma. Preciso ser rápida para que ela não acorde Sofia, que está no quarto ao lado, com 1 anos e 10 meses.
Porém, antes de me levantar, mas já sentada na cama e reunindo forças para ficar de pé, escuto a voz da pequena: "Oliviaaaaaaaaa!". Ai não! Demorei muito, penso, enquanto me levanto. Sofia, animadíssima, continua: "Nào chora Oliviaaaaa! Não choraaaaa! Tá tudo bem, tá tudo bem Liviaaaaa!"
Rio, na madrugada, enquanto Olivia responde com seus berros habituais. De certa forma, concordo com a Sofia. Tá tudo bem. Apesar de tudo e todos. Está tudo bem...
Porém, antes de me levantar, mas já sentada na cama e reunindo forças para ficar de pé, escuto a voz da pequena: "Oliviaaaaaaaaa!". Ai não! Demorei muito, penso, enquanto me levanto. Sofia, animadíssima, continua: "Nào chora Oliviaaaaa! Não choraaaaa! Tá tudo bem, tá tudo bem Liviaaaaa!"
Rio, na madrugada, enquanto Olivia responde com seus berros habituais. De certa forma, concordo com a Sofia. Tá tudo bem. Apesar de tudo e todos. Está tudo bem...
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Dia - feliz - das crianças
Eu fico com a pureza da resposta das crianças, é a vida, é bonita e é bonita...
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
O FIM DOS GORDOS
Está decretado. A proliferação da cirurgia bariátrica não me deixa mentir. A capa da Veja, falando de um remédio que produz emagrecimento milagroso, só veio ratificar o que estamos vendo: os gordos vão acabar. Como vão acabar os óculos e os aparelhos metalizados.
Aparelhos metalizados quase não existem mais. É um tal de aparelho invisível, transparente, de porcelana ou de vidro, chega a me dar saudades quando lembro dos sorrisos adolescentes do colégio, os lábios que riam fechados, relutando em abrir-se, envergonhados pela chuva de prata que era a nossa boca de menina. E a fase em que gostávamos. Sempre tinha um jeca que queria mais era pôr o tal aparelho. Conheci um que tentou colar papel laminado nos dentes da frente, um desejo louco de sorrir prateado, como os outros. Hoje, acho que não se faz mais papel laminado. Para nada.
Os dentes tortos também andam meio sumidos. E os dentes amarelados? Aproveitem para vê-los agora porque, em breve, todos terão sorrisos brancos e ofuscantes como os atores da Globo. Vai um óculos escuro aí? Aliás, óculos, só de sol mesmo. Quem ainda usa óculos de grau? E aqueles antigos conhecidos como fundo de garrafa, lembra? Deixavam os olhos do usuário miudinhos lá dentro, pequenos grãos dentro das lentes grossas e milagrosas que os faziam enxergar... Hoje, os poucos que ainda usam óculos de grau logo farão a cirurgia, numa barraquinha da esquina. Tenho certeza de que ainda vão te oferecer, numa praia qualquer, um combo com cirurgia de miopia mais tatuagem de henna a preços muito módicos. E nós correremos para fazer, bronzeados e visionários.
Também não vejo mais cabelos ressecados, cachos naturais e aquele velho cabelo nem enrolado nem liso, que nunca ficava bom, lembra? Sumiu. Se tem, é só para os menos favorecidos, mas logo acaba. Os produtos transformaram os cabelos naquilo que queríamos que eles fossem: iguais. Hoje em dia, só há dois tipos de cabelos. Ok, três, talvez: os lisos, os chaeados (com cachos perfeitos) e os lisos com cachos nas pontas. Todos lindos. Ai que saudades do cabelo mais ou menos, aquele que exigia uma piranha urgente porque estava mesmo péssimo...
Mas cabelo não faltará no futuro. Pelas animação dos pesquisadores, carecas serão tão raros quanto o mico-leão dourado. Aliás, entre os famosos já não tem careca, né? E só resta o Willian Bonner com aquela faixa branca. Ah, e o Tarcísio Meira também permitiu que seus fios ficassem brancos. Mais algum grisalho, gente, pra mostrarmos que somos gente nesse mundo? Nada. Todos seguidores do Amaury Jr. ou do Ronnie Von. E vamos para a era de muito cabelo escuro ou aloirado. Isso porque nem falo de mulher. Mulher grisalha deve ter uma ou duas, no Sudeste todo: as fortes remanescentes do mundo real.
Não demorará muito para decretarmos também o fim das rugas, da barriguinha e dos peitos caídos. Ah, Clarice dizia que “destino de peito é cair”, mas errou. Destino de peito, hoje, é inflar e subir. Esqueçam a lei da gravidade e olhem para a bela Susana Vieira, naquelas fotos tipo sereia, saindo do mar. É o futuro e suas invencionices.
Ainda faltam poucos. O Jô, e mais dois ou três, mas os gordos vão acabar. Aguardem, e apertem os cintos. O futuro está aí, três furos antes do que você pensa.
Fonte: Crônica do Dia
Aparelhos metalizados quase não existem mais. É um tal de aparelho invisível, transparente, de porcelana ou de vidro, chega a me dar saudades quando lembro dos sorrisos adolescentes do colégio, os lábios que riam fechados, relutando em abrir-se, envergonhados pela chuva de prata que era a nossa boca de menina. E a fase em que gostávamos. Sempre tinha um jeca que queria mais era pôr o tal aparelho. Conheci um que tentou colar papel laminado nos dentes da frente, um desejo louco de sorrir prateado, como os outros. Hoje, acho que não se faz mais papel laminado. Para nada.
Os dentes tortos também andam meio sumidos. E os dentes amarelados? Aproveitem para vê-los agora porque, em breve, todos terão sorrisos brancos e ofuscantes como os atores da Globo. Vai um óculos escuro aí? Aliás, óculos, só de sol mesmo. Quem ainda usa óculos de grau? E aqueles antigos conhecidos como fundo de garrafa, lembra? Deixavam os olhos do usuário miudinhos lá dentro, pequenos grãos dentro das lentes grossas e milagrosas que os faziam enxergar... Hoje, os poucos que ainda usam óculos de grau logo farão a cirurgia, numa barraquinha da esquina. Tenho certeza de que ainda vão te oferecer, numa praia qualquer, um combo com cirurgia de miopia mais tatuagem de henna a preços muito módicos. E nós correremos para fazer, bronzeados e visionários.
Também não vejo mais cabelos ressecados, cachos naturais e aquele velho cabelo nem enrolado nem liso, que nunca ficava bom, lembra? Sumiu. Se tem, é só para os menos favorecidos, mas logo acaba. Os produtos transformaram os cabelos naquilo que queríamos que eles fossem: iguais. Hoje em dia, só há dois tipos de cabelos. Ok, três, talvez: os lisos, os chaeados (com cachos perfeitos) e os lisos com cachos nas pontas. Todos lindos. Ai que saudades do cabelo mais ou menos, aquele que exigia uma piranha urgente porque estava mesmo péssimo...
Mas cabelo não faltará no futuro. Pelas animação dos pesquisadores, carecas serão tão raros quanto o mico-leão dourado. Aliás, entre os famosos já não tem careca, né? E só resta o Willian Bonner com aquela faixa branca. Ah, e o Tarcísio Meira também permitiu que seus fios ficassem brancos. Mais algum grisalho, gente, pra mostrarmos que somos gente nesse mundo? Nada. Todos seguidores do Amaury Jr. ou do Ronnie Von. E vamos para a era de muito cabelo escuro ou aloirado. Isso porque nem falo de mulher. Mulher grisalha deve ter uma ou duas, no Sudeste todo: as fortes remanescentes do mundo real.
Não demorará muito para decretarmos também o fim das rugas, da barriguinha e dos peitos caídos. Ah, Clarice dizia que “destino de peito é cair”, mas errou. Destino de peito, hoje, é inflar e subir. Esqueçam a lei da gravidade e olhem para a bela Susana Vieira, naquelas fotos tipo sereia, saindo do mar. É o futuro e suas invencionices.
Ainda faltam poucos. O Jô, e mais dois ou três, mas os gordos vão acabar. Aguardem, e apertem os cintos. O futuro está aí, três furos antes do que você pensa.
Fonte: Crônica do Dia
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
SE VOCÊ NÃO TEM FILHO >> Kika Coutinho
Crônica do dia
Se você não filhos não sabe uma porção de coisas, mas ouve dizer. Só que tem outras que não te dizem e que vou te contar agora. São coisas pequeninas, quase que insignificantes, mas que somadas representam uma vida nova tão rica e abundante que chega a ser pesada.
Porque é demasiadamente intensa e carregada a vida de quem tem filhos pequenos.
Quando você os tiver, verá que por todos os lados terá sinais da infância transbordando na sua vida de adulta.
Naquela sua sapatilha delicada, aquela toda feita à mão, que você queria usar numa tarde de shopping com as amigas — a tal tarde de shopping que nunca mais acontecerá, ou pelo menos não até seus filhos completarem 15 anos. Pois então, voltando à sapatilha que você foi buscar no armário e, quando colocar, notará que tem areia dentro dela. Areia, um bocado dela. “Ai, aquele dia no parquinho...”, se lembrará arrependida de uma tarde em que ia só dar uma passadinha no térreo, mas acabou sentando no tanque de areia e... bom, filhos pequenos...
Se você não tem filho, deve estar sempre limpinha e asseada, não é? Aproveite porque, quando os tiver, aquela camisa branca ficará amarelada e, enquanto eles forem bebês, você sempre estará com cheiro de leite azedo, viverá as voltas com paninhos, tentando se limpar do vaivém de leite das mamadas de seu pequeno.
E, também, quando você tiver filhos pequenos, uma noite qualquer, antes do banho, vai notar que tem massinha no seu sutiã, ou purpurina no seu queixo, ou, então, quando estiver naquele jantar chique do seu trabalho, vai perceber que esqueceu de esfregar a tatuagem de macaco que fizeram na sua mão naquela festinha a que levou os pimpolhos mais cedo. “Não, não é nada”, dirá sem graça, apoiando a outra mão sobre o rabo do macaco, quando lhe perguntarem o que você tem aí, logo abaixo do anel brilhante.
Quando voce tiver filhos, há de se tomar cuidado para nunca deixar a bolsa cair. Se por ventura acontecer no elevador do escritório de virar tudo no chão, siga meu conselho e não aceite ajuda. Guarde logo a cabeça da Barbie que estava dentro do zíper, corra para pegar a dentadura de vampiro, esconda rapidamente aquele final de pirulito que, a essa altura, já grudou nos lencinhos umedecidos e, por fim, se tiver bolinha de gude, torça para o elevador cair no poço e morrerem todos. Menos você, claro.
Na sua casa, a decoração nunca mais será a mesma. A estante impecável terá, ao lado do porta-retratos de madrepérola, uns M&Ms melecados que você tentou esconder da sua filha e esqueceu ali. Periga ter uma fralda de cocô perdida num armário, e, certamente, pecinhas de encaixe irão ornar com o vaso de orquídeas na mesa de centro.
Esqueça o sofá limpo, o cobertor claro, as paredes lisas. Sempre haverá um rastro de sorvete ou de mel pelos móveis, uns pedaços de mamão, um tanto de caos na sua vidinha, antes tão impecável.
Mas tudo isso, eu conto para você que ainda não tem filhos, sem nenhum temor ou dor. Eu conto isso com a alegria e a constatação de quem se habituou ao caos e, pior, quase que gosta disso. Afinal, a vida, é muito mais viva e colorida, depois que se tem filhos.
Fonte: Crônica do Dia: Kika Coutinho
Se você não filhos não sabe uma porção de coisas, mas ouve dizer. Só que tem outras que não te dizem e que vou te contar agora. São coisas pequeninas, quase que insignificantes, mas que somadas representam uma vida nova tão rica e abundante que chega a ser pesada.
Porque é demasiadamente intensa e carregada a vida de quem tem filhos pequenos.
Quando você os tiver, verá que por todos os lados terá sinais da infância transbordando na sua vida de adulta.
Naquela sua sapatilha delicada, aquela toda feita à mão, que você queria usar numa tarde de shopping com as amigas — a tal tarde de shopping que nunca mais acontecerá, ou pelo menos não até seus filhos completarem 15 anos. Pois então, voltando à sapatilha que você foi buscar no armário e, quando colocar, notará que tem areia dentro dela. Areia, um bocado dela. “Ai, aquele dia no parquinho...”, se lembrará arrependida de uma tarde em que ia só dar uma passadinha no térreo, mas acabou sentando no tanque de areia e... bom, filhos pequenos...
Se você não tem filho, deve estar sempre limpinha e asseada, não é? Aproveite porque, quando os tiver, aquela camisa branca ficará amarelada e, enquanto eles forem bebês, você sempre estará com cheiro de leite azedo, viverá as voltas com paninhos, tentando se limpar do vaivém de leite das mamadas de seu pequeno.
E, também, quando você tiver filhos pequenos, uma noite qualquer, antes do banho, vai notar que tem massinha no seu sutiã, ou purpurina no seu queixo, ou, então, quando estiver naquele jantar chique do seu trabalho, vai perceber que esqueceu de esfregar a tatuagem de macaco que fizeram na sua mão naquela festinha a que levou os pimpolhos mais cedo. “Não, não é nada”, dirá sem graça, apoiando a outra mão sobre o rabo do macaco, quando lhe perguntarem o que você tem aí, logo abaixo do anel brilhante.
Quando voce tiver filhos, há de se tomar cuidado para nunca deixar a bolsa cair. Se por ventura acontecer no elevador do escritório de virar tudo no chão, siga meu conselho e não aceite ajuda. Guarde logo a cabeça da Barbie que estava dentro do zíper, corra para pegar a dentadura de vampiro, esconda rapidamente aquele final de pirulito que, a essa altura, já grudou nos lencinhos umedecidos e, por fim, se tiver bolinha de gude, torça para o elevador cair no poço e morrerem todos. Menos você, claro.
Na sua casa, a decoração nunca mais será a mesma. A estante impecável terá, ao lado do porta-retratos de madrepérola, uns M&Ms melecados que você tentou esconder da sua filha e esqueceu ali. Periga ter uma fralda de cocô perdida num armário, e, certamente, pecinhas de encaixe irão ornar com o vaso de orquídeas na mesa de centro.
Esqueça o sofá limpo, o cobertor claro, as paredes lisas. Sempre haverá um rastro de sorvete ou de mel pelos móveis, uns pedaços de mamão, um tanto de caos na sua vidinha, antes tão impecável.
Mas tudo isso, eu conto para você que ainda não tem filhos, sem nenhum temor ou dor. Eu conto isso com a alegria e a constatação de quem se habituou ao caos e, pior, quase que gosta disso. Afinal, a vida, é muito mais viva e colorida, depois que se tem filhos.
Fonte: Crônica do Dia: Kika Coutinho
O prêmio
Escrito em 1o de agosto. Sobre um prêmio que, dia seguinte, ganhei, orgulhosa...
Tínhamos uma filha de alguns meses, 9, 10, quase um ano, enfim.
E, não sei por que, falávamos de ter mais filhos. Ele, disfarçando a resistência, dizia que, claro, mais pra frente, quem sabe e tal. Eu, firme, argumentava que o “mais pra frente” até tudo bem, mas queria mais duas crianças, para pelo menos completarmos três. Era um papo descontraído, nenhum acordo seria firmado e ninguém estava no cartório. Éramos um casal novo, passeando com carrinho de bebê pelo bairro, em um final de semana de sol.
De repente, cansei de enrolar e inventar argumentos. A verdade nua e crua era uma só, e eu tinha que dizer:
- Amor? Quer saber? Eu preciso ter mais filhos e pronto.
- Como assim? – ele respondeu, intrigado.
- Olha, eu sonhava em viajar pra África, cuidar dos pobres, sonhava em descobrir a cura de qualquer coisa, ser astronauta, magnata ou presidente, e já não fui nada disso.
Ele começou a andar mais devagar, atento. Enquanto eu continuava:
- Eu queria fazer coisas grandiosas da minha vida, mas, veja, fiz uma filha. Se fosse pra não ter filhos, eu queria no mínimo, veja bem, no mínimo, um prêmio Nobel. Preferencialmente, da Paz, que tem sempre aquele tchan, né?
O silêncio ocupou um espaço entre nós, quando ele sorriu. Mas eu não achava graça. Era tudo muito sério:
- E olha só, Amor, eu não fui Nobel, nem vou ser. Também não vou parar em Hollywood, e a verdade é que não me apetece, porque isso tudo é meio ridículo. Quero filhos. Quero parir pessoas, assistir um bicho crescer dentro de mim, pari-lo com ou sem dor, que a mim tanto faz. Quero ensinar como se segura uma colher, como se equilibra no meio-fio, como se desce no escorregador. Quero, quem sabe, ensinar alguém a falar "obrigada", "por favor", "me desculpe". Quero ser responsável por passar para uma outra pessoa qual o valor da risada, do domingo, do dinheiro e dos livros. Isso sim é grandioso, isso é que eu posso fazer ainda, pela vida, pela humanidade, pela espécie, entende?
Meu marido não me respondeu, mas eu notei que esboçava um sorriso, calado, enquanto empurrava o carrinho da nossa pequena filha. Respirei fundo, sugeri um sorvete na padaria e ele topou. Era um bom sinal...
Hoje, cerca de nove meses depois, foi dessa conversa que me lembrei quando o médico anunciou, ainda com o ultrassom na minha barriga: “Amanhã. Tem de nascer amanhã”.
Um frio me percorreu a espinha e eu tive, de novo, a impressão de ter sido premiada com algo muito maior que o Nobel da Paz. Levantei-me da maca com a ajuda do meu marido, que me segurou firme pela mão. “Amanhã”, ele repetiu me olhando, compartilhando daquele frio na espinha, daquele misto de alegria e susto, excitação e pânico, uma tempestade doce e intensa, que só aqueles que fizeram coisas grandiosas, grandiosas mesmo, puderam conhecer.
Amanhã nascerá em São Paulo uma menina, nossa segunda filha. E o Nobel da Paz nunca me pareceu tão ridículo...
Fonte: Crônica do Dia: Kika Coutinho
Tínhamos uma filha de alguns meses, 9, 10, quase um ano, enfim.
E, não sei por que, falávamos de ter mais filhos. Ele, disfarçando a resistência, dizia que, claro, mais pra frente, quem sabe e tal. Eu, firme, argumentava que o “mais pra frente” até tudo bem, mas queria mais duas crianças, para pelo menos completarmos três. Era um papo descontraído, nenhum acordo seria firmado e ninguém estava no cartório. Éramos um casal novo, passeando com carrinho de bebê pelo bairro, em um final de semana de sol.
De repente, cansei de enrolar e inventar argumentos. A verdade nua e crua era uma só, e eu tinha que dizer:
- Amor? Quer saber? Eu preciso ter mais filhos e pronto.
- Como assim? – ele respondeu, intrigado.
- Olha, eu sonhava em viajar pra África, cuidar dos pobres, sonhava em descobrir a cura de qualquer coisa, ser astronauta, magnata ou presidente, e já não fui nada disso.
Ele começou a andar mais devagar, atento. Enquanto eu continuava:
- Eu queria fazer coisas grandiosas da minha vida, mas, veja, fiz uma filha. Se fosse pra não ter filhos, eu queria no mínimo, veja bem, no mínimo, um prêmio Nobel. Preferencialmente, da Paz, que tem sempre aquele tchan, né?
O silêncio ocupou um espaço entre nós, quando ele sorriu. Mas eu não achava graça. Era tudo muito sério:
- E olha só, Amor, eu não fui Nobel, nem vou ser. Também não vou parar em Hollywood, e a verdade é que não me apetece, porque isso tudo é meio ridículo. Quero filhos. Quero parir pessoas, assistir um bicho crescer dentro de mim, pari-lo com ou sem dor, que a mim tanto faz. Quero ensinar como se segura uma colher, como se equilibra no meio-fio, como se desce no escorregador. Quero, quem sabe, ensinar alguém a falar "obrigada", "por favor", "me desculpe". Quero ser responsável por passar para uma outra pessoa qual o valor da risada, do domingo, do dinheiro e dos livros. Isso sim é grandioso, isso é que eu posso fazer ainda, pela vida, pela humanidade, pela espécie, entende?
Meu marido não me respondeu, mas eu notei que esboçava um sorriso, calado, enquanto empurrava o carrinho da nossa pequena filha. Respirei fundo, sugeri um sorvete na padaria e ele topou. Era um bom sinal...
Hoje, cerca de nove meses depois, foi dessa conversa que me lembrei quando o médico anunciou, ainda com o ultrassom na minha barriga: “Amanhã. Tem de nascer amanhã”.
Um frio me percorreu a espinha e eu tive, de novo, a impressão de ter sido premiada com algo muito maior que o Nobel da Paz. Levantei-me da maca com a ajuda do meu marido, que me segurou firme pela mão. “Amanhã”, ele repetiu me olhando, compartilhando daquele frio na espinha, daquele misto de alegria e susto, excitação e pânico, uma tempestade doce e intensa, que só aqueles que fizeram coisas grandiosas, grandiosas mesmo, puderam conhecer.
Amanhã nascerá em São Paulo uma menina, nossa segunda filha. E o Nobel da Paz nunca me pareceu tão ridículo...
Fonte: Crônica do Dia: Kika Coutinho
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